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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Com qual livro você se tornou leitor?


Quando eu tinha uns nove anos meu pai chegou com um livro nas mãos: Deuses, Túmulos e Sábios - O Romance da Arqueologia, de C. W. Ceram.

Ele já vinha me contando umas histórias que estavam despertando minha atenção. Segundo suas informações, uma parte dos relatos da Bíblia eram verdadeiros (eu já andava meio ateia naquele tempo hahaha), a guerra de Tróia realmente tinha acontecido e ninguém sabia como tinham sido construídas as pirâmides do Egito. Suspeito que ele tinha um plano maquiavélico (só que não kkk) em mente: me transformar numa leitora. Sua tática era a de despertar o interesse para depois jogar a isca.

Sim, porque ser leitor não é ser alfabetizado, é algo diferente. Ser leitor é ter acesso a um universo paralelo sem o qual a vida não tem graça. É ter o vício e não querer sair dele, é se relacionar de forma quase erótica com os livros. Antes disso eu era apenas um projeto: já lia os assuntos da minha idade, como Sítio do Pica-Pau Amarelo, algumas biografias pequenas e as Pollyannas da vida. Depois virei profissional. Nível de dependência: passar a manhã inteira escondida embaixo da cama, quietinha pra minha vó não notar, lendo os livros que eram proibidos para a minha idade, como os de Nelson Rodrigues. Ou, em ano de vestibular, não ter dinheiro para comprar o livro que queria e ir todo dia à livraria para ler um capítulo por vez, até terminar. Hahaha!

Então foi um fascínio quando meu pai apareceu com esse livro, já bem surrado, com algumas folhas se soltando, um barbante como marcador de página. Na capa tinha a esfinge em primeiro plano, com a pirâmide de Quéops ao fundo, sob um céu vermelho. Dava pra quase sentir o calor do sol do Egito e o peso dos milhares de anos daquela história tão misteriosa. Meu pai disse: “Não precisa começar da primeira página. Veja aí no índice o que lhe interessa e vá lendo”.



Me joguei. A obra é dividida em partes, cada uma com um tema: o livro das estátuas, o das torres, o da pirâmides, etc. Meu olhar foi diretinho para um capítulo chamado Howard Carter Descobre Tutancâmon. E só posso descrever de uma maneira: mágica! Entrei ali e não saí mais, até hoje.

A linguagem do autor é fluente, romanceada, leve, boa de ler. Parecia que eu estava acompanhando ao vivo, passo a passo, como Carter chegou ao túmulo do rei menino, morto com apenas 18 anos. Eu estava vendo a parede se abrir e um tesouro de milênios aparecer. Tanto ouro, tanta arte, tantas preciosidades, e eu ali, presenciando tudo. Até hoje vejo as carruagens desmontadas e empilhadas num canto, o trono cheio de entalhes, a máscara de ouro e lápis lazuli, uma das maiores preciosidades do mundo. E o melhor: a múmia! Eu estava com ele, eu ajudei a descobrir, fiz o primeiro corte no linho que envolvia o corpo. E também me frustrei quando alguns objetos se desfizeram em pó ao entrar em contato com o ar depois de milênios. Tive vontade de chorar. Minha imaginação colocava cores nas fotos em preto e branco.

O plano do meu pai funcionou: eu era uma leitora. Daí pra engolir todas as outras páginas do livro foi no piloto automático: eu não tinha mais como parar.

Fiz mil aventuras junto com os arqueólogos: desbravei as selvas da Guatemala, resistindo ao calor e aos mosquitos, para encontrar a pirâmide de Tikal. Fui cavar um túnel na Itália e encontrei Pompeia. Usei as jóias encontradas em Troia e chamei a mim mesma de Helena. E descobri que não apenas a Torre de Babel tinha existido como seu verdadeiro nome era Etemenanki.

Fiquei embasbacada com a genialidade do alemão que decifrou a escrita cuneiforme. Infelizmente ele não levou o crédito porque era um simples professor de ensino médio. A ciência também tem, e muito, suas politicagens. Aliás, gênios não faltavam nesse livro. Schliemann leu a Ilíada quando era criança, botou na cabeça que iria encontrar Tróia e encontrou. Detalhe: primeiro ficou rico pra ter dinheiro para as escavações, depois se trancou num quarto de hotel e aprendeu um idioma a cada três meses (não lembro quantos foram), e depois foi lá e achou. Imagina isso na minha cabeça de criança!

Foi assim que desisti de ser astronauta, minha primeira profissão, e decidi ser arqueóloga. E olha que nem existia Indiana Jones ainda! Mas como essa vida é muito injusta eu acabei me tornando mesmo foi advogada. Kkk

Enfim, Deuses, Túmulos e Sábios é o livro da minha vida. Ele me transformou definitivamente em leitora. Abriu-me um universo tão amplo, mas tão amplo, que depois dele tudo passou a me interessar, de astronomia a filosofia. Foi quando eu disse: “Putz! Não posso mais viver sem isso!” Foi quando começou A Fome. Todos os outros vieram depois. Mas ele sempre volta. Já perdi a conta de quantas vezes o li e reli, e o fascínio é sempre o mesmo, como na primeira vez.

Já adulta, viajando pelo mundo, a cada vez que tenho a oportunidade de ver ao vivo uma daquelas preciosidades que vi no livro sempre me emociono: o Código de Hamurabi, um dos capitéis do palácio de Dario,  objetos da Mesopotâmia, etc., etc. Vi o busto de Nefertiti e chorei. E tenho duas frustrações: estive na frente do museu que guarda o Portão de Ishtar, que era a porta (original, a verdadeira) de entrada da cidade de Babilônia, mas ele estava fechado pra reforma. E também estive na frente do museu que expõe o cocar de Montezuma mas não tive tempo de entrar. Mas tudo bem, ainda verei a ambos.

A nota triste é que meu pai me deu esse livro de presente (o mesmo exemplar, velhinho, da minha infância), mas um dia desses me pediu emprestado e o perdeu. Per-deu! Sério, eu chorei. Chorei mesmo, lágrimas rolando pra todo lado. Dei piti. Quase morro. Ainda tenho fé de que ele o encontre lá pelo meio dos trocentos mil livros que tem em sua casa, mas por via das dúvidas já mandei buscar um exemplar num sebo virtual. Não é a mesma coisa, claro, não é o MEU livro, mas pelo menos o texto estará lá.

E você? Com qual livro se tornou realmente leitor? Conte aí! Quero saber.

terça-feira, 23 de julho de 2013

As Sete Filhas de Eva


De onde viemos? Quem somos? Quem eram os nossos antepassados? Eu, brasileira, nordestina, mestiça, onde estão minhas raízes?

Os mitos de criação de todos os povos tentam explicar. A Bíblia diz que somos, todos os seres humanos, descendentes de um único casal: Adão e Eva. Para os índios, Tupã fez os seres humanos com argila e outros ingredientes e, depois, soprou vida nos seus narizes. Os maias contavam que fomos criados do milho.

O certo é que a ciência já demonstrou que o ser humano é o resultado de um longo processo de evolução, junto com as demais espécies desse planetinha djilícia! E a genética vem ajudando a encontrar nossas raízes ancestrais. É disso que trata As Sete Filhas de Eva.

 
O autor, Bryan Sykes, é geneticista da Universidade de Oxford. Participou, dentre outras pesquisas importantes, dos estudos com o Homem do Gelo (batizado de Ötzi), aquela múmia famosa encontrada nos Alpes italianos. Descobriu, inclusive, descendentes diretos de Ötzi vivendo hoje na Europa. 

Pois bem. Sykes estava por ali, no seu laboratório, estudando os genes do Homem de Gelo, quando teve um momento “eureka”, desses que os cientistas têm de vez em quando: estudar profundamente o DNA mitocondrial, que, por suas características únicas, pode revelar as origens da humanidade.

Como assim, tia Holanda? Assim: nós temos dois tipos de DNA nas nossas células. O primeiro é o que fica no núcleo celular. É aquele que herdamos metade do pai, metade da mãe. O segundo é um DNA que fica fora do núcleo das células, no citoplasma, mais especificamente nas mitocôndrias (não sabe o que é isso não? Vai no Google e olha, que é difícil de explicar aqui). Esse segundo tipo a gente herda somente da mãe, porque ele fica no citoplasma do óvulo e no flagelo do espermatozoide. Como o flagelo se perde no momento da fecundação e não entra no óvulo, a gente fica, em termos mitocondriais,  só com o da mãe mesmo.

O momento eureka nisso é que, se herdamos só da mãe o DNA mitocondrial, é possível traçar, estudando-o, uma linha contínua que vai de filha para mãe, avó, bisavó, tataravó... até o início da humanidade. Mas sempre pelo lado materno. Assim, eu posso saber se minha tatataravó veio da Europa, da Ásia, da Polinésia, etc.

Pois o danado do Sykes se pegou com o DNA mitocondrial e conseguiu descobrir coisas incríveis. Por exemplo: todos os europeus da atualidade descendem de apenas sete mulheres (as sete filhas de Eva - dããã!!!). E estas, por sua vez, descendem de outras, ainda mais antigas, nascidas na África. Resumindo: todos os seres humanos do mundo atual descendem de apenas 30 mulheres. Crescei e multiplicai!

Ele fala com muita sensibilidade e inteligência sobre cada uma dessas sete mulheres, o contexto material e cultural e a época em que viveram. A cada uma dá um nome e para cada uma cria uma história que nos ajuda a visualizar o tipo de vida que tiveram. É maravilhoso!

O livro em si é ótimo de ler. O assunto pode ser meio cascudo, mas o autor consegue explicar de forma fluente, leve e muito bem humorada. Como na passagem em que ele conseguiu extrair DNA de uma múmia de nove mil anos encontrada na região de Cheddar (a do queijo) na Grã Bretanha, e comparou com o DNA da população local atual, inclusive com o Lorde da região.

“Quando recebemos o resultado, não foi surpresa que Lord Bath não fosse aparentado com o Homem de Cheddar. Não havia razão especial para que fosse. Mas seu mordomo, Cuthbert, um dos que haviam doado amostras durante minha visita a Longleat, tinha a mesma sequência. De repente ele podia alegar uma antiguidade familiar que se estendia por nove mil anos, fazendo o pedigree de quinhentos anos da família Thynn parecer distintamente nouveau. Perguntei a Lord Bath como Cuthbert recebera a notícia. Será que mudara sua atitude para com a aristocracia?
- Bem – respondeu ele com um sorriso -, ele tem se sentido muito seguro ultimamente.”

 
Uma nota pessoal

É interessante que eu tenha lido esse livro justamente agora. Cerca de uma semana depois que terminei de lê-lo, minha avó materna, vó Nanú, faleceu (exatamente quatro dias atrás). Eu vinha fazendo tantas reflexões sobre meu lugar no mundo, sobre minha identidade, minhas origens...


Quero deixar aqui minha homenagem para Ana Maria, Nanú. Meu DNA mitocondrial, meu sangue, meu coração, minha ancestral. Eu, Holanda, filha de Socorro, filha de Ana (Nanú), filha de Cirila, uma italianinha que veio para o Brasil ainda adolescente. De qual das sete filhas de Eva Cirila descendia? De qual delas Nanú, Socorro e eu? Somos todas galhos de uma árvore imensa, cujas raízes se perdem na névoa do tempo. Obrigada, minha vó, por estender seus galhos até mim.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mil Viagens Pelo Céu

Como boa cria dos anos 70/80, cresci vendo TV. Via tudo: filmes, séries, desenhos, programas de auditório, o que aparecesse. Menina criada por vó, sem poder brincar na rua, eram os livros, as revistas das minhas tias e a TV que faziam minha mente viajar.

De todas as séries que vi quando criança, nenhuma me influenciou mais do que Cosmos, de Carl Sagan, lançada em 1980 e exibida aqui no Brasil uns dois ou três anos depois. Ainda hoje acho que foi a melhor série já produzida pela TV em todos os tempos, entre ficção e não-ficção. Quem não viu na época talvez não se maravilhe tanto vendo hoje (foi relançada há alguns anos em DVD, e com atualizações, pela Superinteressante), mas para a meninada que viu quando estava na casa dos nove, dez anos, foi inesquecível.

A série era sobre astronomia, mas tinha muito mais: falava sobre arqueologia, história, filosofia, arte, ciência em geral e, sobretudo, sobre a jornada do conhecimento humano. Foi a primeira vez que ouvi dizer que o tempo não era absoluto, mas relativo; que Alexandria tinha uma biblioteca fantástica; que Eratóstenes mediu a circunferência da Terra comparando as sombras de duas varetas ao meio dia em duas cidades diferentes, etc. etc. etc. Carl Sagan dizia que "somos todos feitos de poeira estelar". Não é poesia pura?


Poderia gastar horas escrevendo aqui sobre tudo o que Cosmos me ensinou e, mais ainda, sobre tudo o que despertou na minha curiosidade. Foi por conta da série que eu sempre quis – e continuo querendo - aprender muitas coisas e que eu ainda hoje tenho fascínio por tudo o que diz respeito a astronomia. Eu sou meio que uma astrônoma frustrada. Qual menina teve Carl Sagan como primeiro amor platônico? Acho que só eu (risos). A série era um luxo só: imagens da NASA, apresentador maravilhoso e trilha sonora de Vangelis (o mesmo que fez a trilha de Blade Runner). Inesquecível o tema principal, Alpha (http://www.youtube.com/watch?v=rT5zCHn0tsg). Ainda hoje me transporto para a nave espacial da série quando escuto. Uma verdadeira viagem!

Carl Sagan morreu (tá, a morte acontece com todo mundo, mas não dava pra esperar um pouco mais? Congresso Nacional tá aí, né? Não morre um!), mas nunca mais eu deixei de AMAR astronomia e ciência em geral. E vez por outra estou por aí fuçando a internet e acabo descobrindo coisas legais. Vamos a elas.

O site que mais gosto, sem dúvida, é o Astronomy Picture of The Day (APOD), da NASA. É simples: uma foto de astronomia por dia (às vezes são vídeos), cada uma mais deslumbrante que a outra. As fotos vêm todas com explicações (em inglês) e ainda dá pra pesquisar no site por assuntou ou ver as fotos que já foram publicadas. O link: http://apod.nasa.gov/apod/ap130707.html . Sente só o drama (essa é a nebulosa da Borboleta).

 
Outro site que eu também gosto muito é o WorldWide Research, da Microsoft. Na verdade é um programa que você baixa no computador e ele te dá imagens de 27 telescópios, satélites e sondas espaciais. Dá pra você andar por Marte junto com a sonda que está lá neste momento, viajar pela Via Láctea e por outras galáxias, ver os corpos celestes mais estranhos e, se você tiver óculos 3D, ainda aproveita muitas outras coisas. Muuuuito bom! Aqui: www.worldwidetelescope.org

O youtube também não deixa por menos. Já pensou em ouvir os sons dos planetas? Bom, eles não emitem sons de verdade, mas emitem sinais eletromagnéticos que os cientistas pegaram e converteram em som. É interessante e, algumas vezes, assustador. Ouçam o “som” de Júpiter: http://www.youtube.com/watch?v=e3fqE01YYWs . Além disso, há programas sobre astronomia da BBC e de outros canais, explicações sobre teorias viajadas como a dos multiversos e a das supercordas, etc.

O site da NASA, óbvio, tem tudo e mais um pouco. Sabia que já aterrissamos uma sonda em Titã, uma das luas de Saturno? Pois foi. A Cassini-Huygens aterrissou lá em 2005. Lá tem rios, só que são de metano líquido. Ó a imagem:
http://www.nasa.gov/mission_pages/cassini/multimedia/gallery/pia07230.html

Pronto. Pra não me alongar mais ainda do que já me alonguei, quero deixar só um link que acho fan-tás-ti-co! Você move a barra pra lá e pra cá e vê a escala exata de tudo o que há no universo. É tão incrível que a gente não consegue apreender totalmente. Sem palavras!  http://htwins.net/scale2/lang.html

Olhar para o espaço é encontrar nosso lugar no universo.